Muito além das passarelas, Couture transforma a moda em metáfora, o corpo em narrativa e o tempo em conflito.
A moda sempre foi sinônimo de espetáculo. Luzes, flashes, tecidos impecáveis e silhuetas desenhadas para encantar. Mas o que acontece quando as cortinas se fecham? É exatamente nesse espaço silencioso, intenso e humano que nasce Couture, novo filme estrelado por Angelina Jolie, com estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto 2025 e lançamento previsto no Brasil em 2026.
Ambientado nos bastidores da Paris Fashion Week, o longa não se limita a retratar o glamour da indústria. Pelo contrário: ele o desconstrói. Couture propõe um olhar íntimo, quase documental, sobre o que sustenta o brilho externo da moda — pessoas, corpos, escolhas e renúncias.
A narrativa se constrói a partir de três protagonistas femininas, cujas histórias se entrelaçam como fios de um mesmo tecido:
Maxine, interpretada por Angelina Jolie, é uma cineasta americana que vive um ponto de ruptura pessoal e criativo. No auge da efervescência fashion parisiense, ela se vê obrigada a encarar o vazio que existe após o espetáculo.
Ada, jovem modelo do Sudão do Sul, representa a promessa e o sacrifício. Seu corpo é visto como produto, enquanto sua identidade luta para não ser apagada por um sistema que exige perfeição constante.
Angel, maquiadora que trabalha à margem dos holofotes, simboliza a mão invisível da moda — aquela que constrói a imagem, mas raramente é reconhecida por ela.
Essas mulheres não disputam espaço; elas coexistem. Suas trajetórias ecoam umas nas outras, revelando que, por trás de funções diferentes, existe um mesmo conflito: sobreviver emocionalmente em um universo que consome tempo, juventude e subjetividade.
Dirigido por Alice Vinokur, Couture assume uma estrutura narrativa fragmentada, quase como uma colagem sensorial. O corpo surge como metáfora central — não apenas como suporte de roupas, mas como território de disputa, identidade e resistência.
A escolha de filmar em locações reais, incluindo espaços históricos ligados à Chanel na rue Cambon (sem uso explícito de marcas), reforça o realismo e a autenticidade da obra. A moda apresentada no filme é fictícia, mas os conflitos são absolutamente reais.
Vinokur passou um ano acompanhando bastidores de desfiles, convivendo com costureiras, maquiadores e modelos fora da passarela. Essa imersão se reflete na narrativa, que capta a obsessão da indústria pelo tempo: uma coleção substitui a outra, uma temporada apaga a anterior, e nada parece durar o suficiente.
Em uma de suas atuações mais contidas e simbólicas, Angelina Jolie entrega uma personagem marcada mais por silêncios do que por diálogos. Para o papel, a atriz aprendeu francês e se envolveu profundamente com o projeto, que dialoga com sua própria trajetória de transformação pessoal e artística.
Sua presença em Couture não é a de uma estrela que domina a cena, mas a de uma mulher que observa, absorve e, em determinado momento, rompe. É justamente essa contenção que dá força à personagem e amplia o impacto emocional do filme.
Em um momento em que a moda é cada vez mais questionada por seus excessos, pela pressão estética e pela velocidade insustentável, Couture surge como um filme necessário. Ele não acusa, mas revela. Não grita, mas incomoda. E, sobretudo, convida à reflexão.
Para o público brasileiro — especialmente leitores atentos às interseções entre moda, cultura e comportamento — o filme dialoga com temas universais: identidade, pertencimento, visibilidade e o preço do sucesso.
Couture não é um filme sobre roupas. É um filme sobre pessoas costuradas por circunstâncias, tentando não se desfazer antes do próximo desfile.